10 de março de 2025 - Segunda-feira com Merle Oberon e Laurence Olivier
No dia 5 de janeiro de 2025, o “Palácio Garnier”, ou “Ópera
Garnier”, completou 150 anos. Leva o nome de seu genial arquiteto Charles Garnier.
É uma das máximas expressões do Segundo Império francês, do
reino do imperador Napoleão III, embora tenha sido inaugurada depois da queda
desse soberano, durante a chamada “Terceira República” francesa.
Suas novidades nas concepções técnicas, na percepção do local
como lugar de convivência sofisticada, na transformação do teatro em um grande
monumento, em uma “arquitetura acontecimento” que se torna essencial para a
cidade em que se inscreve, tornando-se o símbolo de uma cultura e de uma época,
revolucionou o programa arquitetural do teatro de ópera, e serviu de modelo
para os que surgiram pelo mundo afora depois dele: no Brasil, por exemplo, os Teatros
Municipais do Rio e de São Paulo são dois desses ilustres herdeiros.
O Museu d’Orsay de Paris, inaugurado em 1996, centra a
cultura artística desenvolvida durante a segunda metade do século XIX. Michel
Laclotte, que criou esse museu e que era um grande apaixonado e um grande
conhecedor de ópera, pôs sob um piso de vidro a maquete do bairro parisiense do
qual o edifício de Garnier faz parte. Está no final da grande sala nobre de
entrada, onde há também outra enorme maquete em corte longitudinal do teatro (quase
seis metros de largura). Dessa maneira, Laclotte sublinha o papel crucial que a
ópera representou para toda a cultura daquele período.
O edifício foi configurado para ser tecnicamente perfeito,
espécie de máquina destinada à função de criar espetáculos que arrebatassem o
público, com um maquinário intricado, sistemas complexos de iluminação a gás,
que não tardariam a se eletrificar. Porém, a perfeição propriamente técnica não
bastava: era preciso criar um fabuloso palácio dos sonhos onde, ao entrar, os
espectadores se sentissem mergulhados na opulência dos ouros, dos bronzes, dos
cristais e espelhos.
Era também um espaço de representação social em que o público
oferecia a si mesmo o espetáculo de si mesmo, como uma corte real que
desfilasse pela grande escadaria, conversasse em salões ornados, desdobrando-se
nos reflexos dos espelhos. Foi mobiliado com as mais belas obras de arte.
Desde a fachada o público se deparava com quatro imensas
esculturas, uma delas sendo a fenomenal A Dança, de Jean-Baptiste
Carpeaux. Para ser protegido, o original está hoje conservado no museu d’Orsay;
foi substituída, no edifício da Ópera por uma excelente cópia executada pelo
escultor Paul Belmondo, pai do conhecido ator de cinema.
Entre outras maravilhas, dentro, bem atras da escada, numa
gruta concebida por Garnier, está a terrível Pítia, em bronze, obra
máxima de Marcello, pseudônimo de Adèle d'Affry, duquesa de Castiglione
Colonna, grande escultora que se escondia por trás de um nome masculino. A
pítia era uma profetiza de Apolo, o deus das artes a quem aquele suntuoso
palácio era consagrado. Para a sala, o pintor Jules Lenepveu criou um teto
brilhante representando As Musas e as Horas do dia e da noite. Essa
alegoria está hoje escondida sob um forro removível pintado por Marc Chagall:
em 1964, quando a encomenda foi passada ao pintor pelo então ministro da
cultura André Malraux, defensor da arte contemporânea, pintores como Lepneveu
eram considerados “acadêmicos”, indignos de se alçarem à categoria de
verdadeiros artistas. O tempo passou; hoje o teto de Chagall é considerado por
muitos como uma estridência dentro daquela augusta sala, e começou um movimento
de opinião para que o novo teto seja retirado e o recinto volte ao estado original.
Quando Wagner concebeu seu teatro para o festival em Bayreuth
contrariou todo o aspecto social, eliminando as partes comuns e centrando tudo
no anfiteatro onde suas óperas se davam: o alto apreço que ele tinha pelas
próprias obras não admitia a concorrência do espetáculo social. Assim, o Festspielhaus
de Bayreuth era uma resposta em negativo à ópera de Garnier.
Pensemos também que a ópera de Garnier foi concebida para um
gênero especificamente francês, chamado Grand Opéra, que misturava todas
as artes e que teve seu gênio máximo no compositor Meyerbeer. A célebre idéia
da Gesamtkunstwerk, ou obra de arte total de Wagner, existia já na ópera de Paris – embora o
compositor alemão odiasse Meyerbeer e sua música.
Restaria mencionar o Fantasma da ópera, indissociável
do edifício e de seu lustre. Mas isto é uma outra história que fica para uma
outra vez.
Bela fotografia que me foi enviada pela querida Christine, da Maison Kronios, em Creta.
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