29 de outubro de 2025 - Quarta-feira de titulação da Viven
As traduções que realizei de quatro
romances de Georges Simenon — O inquilino, Os suicidas, Os clientes de
Avrenos e Bairro negro — pertencem ao grupo de obras que ele próprio
chamava de romans durs, ou “romances duros”. Diferentemente das
histórias do comissário Maigret, esses livros não se baseiam em decifrações
policiais. São narrativas centradas em crises existenciais, em que o enigma não
é um crime, mas o próprio ser humano diante de suas contradições, culpas e
desamparos. Nelas, Simenon explora a queda das máscaras sociais e o momento em
que o cotidiano se rompe, expondo o abismo interior de seus personagens.
Simenon figura grandes escritores
do século XX — sua inclusão na prestigiosa coleção da Bibliothèque de la
Pléiade, que reúne autores considerados fundamentais da literatura
universal comprova esse reconhecimento. Sua obra constrói de uma reflexão
filosófica sobre a condição humana. Nesse sentido, pode ser visto como um
“proto-existencialista”: ele põe em cena seres que vivem situações-limite, nas
quais a liberdade e a responsabilidade moral se revelam de modo arrasador.
Albert Camus encontrou em Simenon a forma narrativa que vem carregada dessa
tensão entre lucidez e absurdo.
Traduzir Simenon significa lidar
com uma linguagem de extrema precisão. Seu estilo é direto, econômico, sem
ornamentos, mas com elegância e ritmo interno. O principal ponto é preservar
essa naturalidade — a fluidez e a sobriedade que fazem sua prosa parecer
simples, quando na verdade é rigorosamente construída. A tradução precisa
evitar tanto o empolamento quanto o descuido, buscando uma voz em português que
mantenha o equilíbrio entre clareza e inquietação moral.
Vi só o começo, interrompido com a chegada do Lúcio
- Diretor: Joseph M. Newman
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